Paralisação das atividades exige adaptação de comerciantes e igrejas da cidade. Apesar das dificuldades, isolamento horizontal ainda é considerado o mais efetivo na prevenção da doença.

Caio Possati Campos, especial para o Pé de Figo

Decretado em Valinhos há, aproximadamente, um mês, o isolamento social vai durar na cidade, pelo menos, até o dia 10 de maio.

A medida foi anunciada na manhã da última segunda-feira (20) pela Prefeitura, que decidiu atender às recomendações  da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo de permitir somente o funcionamento de estabelecimentos que prestam serviços considerados essenciais, como saúde (farmácias), alimentação (restaurantes e supermercados) e segurança. Esta é a terceira vez que o Executivo estende a quarentena, iniciada em Valinhos no dia 23 de março.

Embora especialistas justifiquem o isolamento social como a medida mais eficaz para frear o avanço da contaminação do novo Coronavírus e, por consequência, não sobrecarregar o sistema público de saúde, a decisão de isolar as pessoas e paralisar atividades tem desagradado setores da sociedade civil.

Neste um mês de quarentena adotada por cidades em todo o país, carreatas pedindo pela reabertura de comércios e manifestações pelo fim do isolamento social, como o buzinaço na frente do Incor (Instituto do Coração), em São Paulo, no último domingo (19), foram realizados em diferentes regiões do Brasil.

Em Valinhos, o apoio às medidas da Prefeitura também não é unânime e o poder público tem sido pressionado para flexibilizar as medidas de quarentena na cidade. Representantes do comércio, um dos setores mais atingidos pela crise, têm se manifestado contrários ao atual isolamento horizontal adotado.

Aguiar defende o isolamento somente para as pessoas do grupo de risco.

José Aguiar, proprietário de uma imobiliária na cidade, e que também já ocupou uma das cadeiras da Câmara como vereador e suplente, é um deles. Após publicar um vídeo em suas redes sociais em que defende o isolamento vertical, medida que restringe somente a circulação de pessoas do grupo de risco (idosos e imunodeprimidos), o empresário acredita que a estratégia do isolamento horizontal aplicado não é a forma mais eficaz de combater a pandemia.

“O isolamento social, na minha opinião, não resolveu. Tenho observado e pesquisado que, em todos os locais onde foi feito este tipo de isolamento, o número de casos aumentou. Você não vai achar em nenhum lugar onde o número de casos diminuiu com essa medida”, afirmou.

O posicionamento do ex-vereador e hoje pré-candidato a prefeito de Valinhos pelo PRTB vai na contramão do que a Organização Mundial da Saúde (OMS), especialistas e infectologistas afirmam sobre a eficiência de evitar aglomerações para frear e achatar a curva de disseminação do Covid-19. Um estudo feito pela universidade britânica Imperial College calcula que o isolamento social adotado pode ter ajudado a evitar 120 mil mortes no continente europeu.

Para Aguiar, além de não ser eficaz, o isolamento social também está prejudicando as pessoas que tiveram exames e cirurgias desmarcadas nesse período. “Eu sou a favor e defendo a vida em todas as hipóteses. Só que nesse sistema de isolamento horizontal estamos perdendo mais vidas, não só por conta da contaminação, mas também porque pessoas tiveram seus tratamentos de quimioterapia e hemodiálise adiados”, comentou o empresário, que se diz preocupado também com o aumento da fome e do desemprego que podem ser provocados pela paralisação das atividades econômicas.

“Eu sou a favor da vida, desde que preserve mais vida e não quebre o município, o estado ou o país. Minha preocupação é que vamos ter dificuldades financeiras e a fome vai chegar na porta das pessoas”, completou.

Santa Casa mantém cirurgias de urgência e emergência

De acordo a assessoria de imprensa da Santa Casa, somente cirurgias eletivas do SUS foram canceladas pela Secretaria Municipal de Saúde, enquanto que as cirurgias de urgência e emergência foram mantidas neste período. A assessoria informou também que quimioterapia e hemodiálise são procedimentos que a Santa Casa não realiza.

“Não é ganância do comerciante”, afirma presidente da ACIV

Emerson Ferrari, presidente da ACIV

Emerson Ferrari, presidente da ACIV (Associação Comercial e Industrial de Valinhos), órgão do terceiro setor responsável por representar, aproximadamente, 550 pessoas jurídicas na cidade, admite que a entidade apresenta discordâncias com a adoção do isolamento social, mas entende que é necessário respeitar a ordem do poder público, uma vez que o descumprimento as regras pode levar à perda do alvará de funcionamento do comércio.

“Temos total empatia com a preocupação que começa a tomar conta dos empresários, mas a desordem social não é a solução para o problema. A população precisa ter empatia com os comerciantes, entendendo que a necessidade externada de muitos para retornar as atividades não é ganância, mas sim uma preocupação em honrar os compromissos, pensando na continuidade da sua empresa e em todos os postos de trabalho que ela gera”, explicou Ferrari.  

O presidente da ACIV também afirmou que estão preocupados com toda a classe empresarial de Valinhos, sobretudo aqueles que já sinalizaram o fim das atividades dos negócios e que tiveram que recorrer às demissões de funcionários. “Esperamos do poder público uma ação mais colaborativa com participação do terceiro setor. Encaminhamos nossas demandas para o executivo, que foram indeferidas, mas seguimos buscando uma saída viável para o agora e também para o período de retomada pós quarentena”.

Cultos online e defesa pela abertura dos templos

A instituições religiosas também compõe outro setor na cidade atingida pela crise do novo Coranavírus e pelo sistema de quarentena.

Marcelo José Amgartem, presidente da OMEV (Ordem dos Ministérios Evangélicos de Valinhos) e pastor da igreja evangélica Care Church, diz que a ordem não pode se manifestar  em nome das cerca de 70 igrejas da cidade porque “cada uma tem o seu pastor e seu posicionamento quanto ao isolamento social. O OMEV não tem ingerência sobre as igrejas, mas pode orientá-las”.

Por enxergar na religiosidade uma fonte de conforto, orientação e serviço espiritual para a população, o pastor entende que a ausência dos cultos presenciais compromete o acompanhamento que a igreja faz com as pessoas que encontram na religião um caminho para solucionar conflitos pessoais. “Com o isolamento, fica um pouco mais difícil de termos contato com as pessoas que ajudamos e que estão passando por um momento delicado”, afirma.

O pastor Samuel Nicolau, da igreja Baptista das Nações, conta que se apoiou nas ferramentas virtuais para continuar suas atividades. “Estamos fazendo cultos online. Nós gravamos e disponibilizamos na plataforma YouTube para que aqueles que não puderam acompanhar ao vivo possam assistir depois”, explica Samuel. “Por meio das redes sociais, temos nos esforçado para conversar, orar junto e mostrar maior proximidade com as pessoas”, completa o pastor.

Amgartem afirma que os pastores da cidade estão em conversas com as autoridades do município para que permitam a abertura dos templos para fazer cultos presenciais. “Mas defendemos que só deve  acontecer na condição de respeitar o distanciamento entre as pessoas e com as devidas orientações para que elas usem máscaras e façam o uso do álcool em gel”, diz o pastor.  

Dra. Paula: estamos descobrindo e aprendendo as formas de transmissão e tratamento da Covid-19

Infectologista defende o isolamento

Em entrevista a TV Pé de Figo, a médica infectologista Paula Fernanda Gomes Telles defende o isolamento social por ser, até agora, a medida mais efetiva de prevenção da doença.“A Covid-19 surgiu recentemente. Estamos descobrindo e aprendendo suas formas de transmissão, prevenção e tratamento. A transmissão dela é pelo contato e pela via respiratória. Por isso, as pessoas devem evitar ter aglomerações, lugares cheios e contato com outras pessoas”, reforçou a médica

Prefeitura diz que cumpre medida imposta pela OMS e Governo do Estado

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Valinhos confirmou que setores da cidade têm pressionado pela flexibilização do isolamento social, mas afirmou que a “decisão de manter algumas atividades suspensas não é uma vontade do gestor público, mas uma medida imposta por embasamento técnico fornecido por órgãos como Organização Mundial da Saúde e do Governo do Estado de São Paulo”.

Em Valinhos, o índice de isolamento social, que chegou a 58% no último final de semana, caiu para 51%, como aponta o último Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI) do Estado, divulgado nesta terça-feira (21). De acordo com o último boletim (até às 11h do dia 22 de abril) publicado pela Secretaria de Saúde do município, a cidade contabiliza 20 casos confirmados e três óbitos pelo novo Coronavírus.

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