Foto: Marcel Pazinatto

“Valinhos é uma cidade dormitório”. Escuto esta afirmação desde que comecei a frequentar a cidade, já tem mais de 10 anos. Tanto que até comecei a reproduzi-la por aí como uma forma bem simplificada de contar às pessoas o que é Valinhos. E de fato, generalizando, o valinhense não trabalha em Valinhos, enquanto que as indústrias de Valinhos pouco contratam valinhenses – eu mesmo já trabalhei por aqui quando ainda morava em Campinas, e hoje que moro aqui, trabalho em Campinas. Por isto acho que a expressão resume bem, de certa forma, como os moradores usufruem a cidade: para descansar em casa depois de um longo dia de trabalho.

Lógico que nem sempre foi assim. Houve uma época em que a grande maioria dos valinhenses trabalhava em uma das três grandes indústrias da cidade: Gessy, Rigesa e Clark. Mas a cidade cresceu, foi ocupada por condomínios; as indústrias mudaram, principalmente em suas relações com a cidade, e hoje este negócio de morar e trabalhar na mesma cidade está se tornando um privilégio cada vez mais raro. E, com o morador ficando cada vez menos em sua própria cidade, ele acaba aproveitando cada vez menos o que ela tem pra oferecer, e um dos resultados é o esvaziamento de seu centro comercial.

-publicidade-

Não é raro nós do Pé de Figo ouvirmos reclamações de lojistas da cidade sobre o baixo, e cada vez menor, fluxo de pessoas no comércio da cidade. Valinhense não trabalha em Valinhos e também não consome em Valinhos. E esta não é uma exclusividade nossa não. É facilmente observável em outras cidades maiores, inclusive – veja o exemplo de Campinas. E como estamos pensando em novas formas de usufruir a cidade, cabe pensarmos nos motivos que levam a este estado de esvaziamento de nosso centro, de nosso comércio, que é grande responsável por garantir que as riquezas de nossos moradores continuem circulando por aqui.

Claro que todos vão pensar: “mas a culpa é deste monte de shoppings que tomaram as cidades. Shoppings oferecem muito mais conforto, não dá pra competir com eles”. Até eu tenho consumido muito mais em shoppings do que no comércio de rua, e olha que, ideologicamente, eu sou um grande apoiador do comércio local, dos pequenos lojistas. Então me esforço a pensar nas razões que me levam a preferir pagar R$ 10,00 só para estacionar num shopping ao invés de passear no centro.

De início, temos que levar em conta toda esta transformação social do trabalho. Hoje temos muito mais pessoas inseridas no sistema de trabalho formal. De adolescentes a mulheres adultas casadas, e até aos idosos. Seja por necessidade, pela busca de autonomia financeira, pelas péssimas condições de aposentadoria ou qualquer outro motivo, observamos um número cada vez maior de pessoas buscando aquele posto de trabalho padrão em que precisamos bater cartão em horário comercial. Como consequência, estas pessoas deixaram de estar disponíveis para consumir nestes períodos. Se um trabalhador sai todo de Valinhos às 7h30, passa o dia no trabalho, e retorna só às 18h30, e ainda trabalha aos sábados pela manhã (como no meu caso), fica completamente impossibilitado de consumir no comércio local, que também só está aberto nestes períodos.

É contra intuitivo fechar as portas do comércio exatamente no horário em que as pessoas estão disponíveis para consumir, e neste sentido, os shoppings, abertos até 22h, 23h, conquistam esta grande parcela de consumidores. Mas para o comércio local poder manter suas portas abertas neste período noturno, temos o grande desafio de promover a segurança dos lojistas e consumidores.

Não tenho números para afirmar como fato, mas existe um senso comum de que a chegada da noite traz consigo o aumento da violência. Ou então, em proporções muito maiores, o aumento da chamada sensação de insegurança. Com medo da violência, as pessoas esvaziam os espaços, e espaços vazios aumentam ainda mais a sensação de insegurança, o que leva a um esvaziamento ainda maior, virando um ciclo vicioso. Como solução para este ciclo, podemos tomar como exemplo as inúmeras pesquisas sobre casos de cidades que conseguiram reverter situações semelhantes. Neste sentido, pequenas intervenções do poder público já ajudam muito neste caminho, como uma iluminação eficiente, maior presença de policiamento, monitoramento por câmeras… mas logicamente, estas intervenções devem estar contempladas em uma política pública, com planejamento estratégico adequado, e a consciência de que os maiores resultados virão a médio e longo prazo.

Já para atrair as pessoas para começarem a ocupar estes espaços, nada mais eficiente que a realização de atividades e ações culturais. Para dar início a um processo de reocupação de espaços, é preciso oferecer à comunidade bons atrativos que façam as pessoas saírem de sua zona de conforto e se abrirem a esta nova possibilidade de vivenciar a cidade. Com um centro iluminado, policiado e ocupado, a sensação de insegurança diminui, e com o tempo a chegada da noite deixará de ser motivo para não usufruir de nossa cidade.

Deixe um comentário

Por favor, digite seu comentário.
Por favor, digite seu nome