Foto: Tomás Cajueiro

Dentro da programação da Virada Sustentável em Valinhos, o fotógrafo e produtor cultural, Tomás Cajueiro, apresenta a exposição Terùn, no CACC, dia 12 de abril, sexta-feira, das 8 às 21 horas.

O que é ‘Terùn’? Uma gostosa mistura de retratos das pessoas e dos espaços que compõem o acampamento ‘Marielle Vive’, organizado pelo do Movimento Sem Terra desde abril de 2018 na estrada Valinhos-Itatiba. O trabalho apresenta à população da cidade um pouco dos principais personagens dessa história: os acampados. Adjacentes às fotos estão presentes dezenas de depoimentos que foram recolhidos em redes sociais no período em que as fotos eram feitas. São relatados comentários de moradores de Valinhos, com a intenção de mostrar como a falta de diálogo pode nos isolar em bolhas que pouco condizem com a realidade.

Após o término da exposição na Virada Sustentável, as fotos serão expostas dentro do acampamento Marielle Vive, como maneira de mostrar também aos acampados a arte que conta suas histórias.

Porque ‘Terùn’?  Era abril quando na pequena Valinhos, um grupo de agricultores do MST, teve a corajosa atitude de ocupar as terras de uma fazenda há muitos anos improdutiva. A histórica luta por terra em nosso país chegava a Valinhos, cidade que nas últimas décadas tem tido na especulação imobiliária o pilar de seu desenvolvimento. Mais do que ocupar uma terra, a ocupação ‘Marielle Vive’ ocupou o imaginário coletivo e passou a pautar muitos dos debates da pacata cidade do interior paulista. Pessoas tomavam lado, embates aconteciam, opiniões se contrastavam. No momento de extrema polarização de posições políticas, nas redes sociais o debate era intenso.

Debate esse que girava muito em torno do modelo de desenvolvimento baseado na especulação imobiliária escolhido por Valinhos já que o acampamento ‘Marielle Vive’ acontece em uma propriedade localizada na Serra dos Cocais, enorme reserva de mata nativa que é alvo de intensos debates na cidade de Valinhos entre aqueles que defendem a sua preservação e aqueles que querem ali construir condomínios. Ao debatermos a ocupação, o projeto propõe de fundo um debate sobre esse modelo e suas ramificações para a cidade.

Mas a luta da terra vai muito além de grandes questões político partidárias. Vai muito além de opiniões digitais. É uma luta concreta, feita de gente. De pessoas com sonhos, dores e alegrias e que buscam naquelas novas terras a oportunidade de construir uma nova vida. Foi com essa ideia na cabeça que Tomás Cajueiro acompanhou os primeiros dois meses da ‘Ocupação Marielle Vive’. Ali conversou e conheceu os pioneiros, aqueles que chegaram ainda em uma situação juridicamente instável para lutar por um pedaço de terra. ‘Terún’ nasce desse momento, registra o surgimento o espaço hoje ocupado por mais de 1.000 famílias. Registra os primeiros passos, primeiras estacas, primeiras esperanças.

‘Terún’ é uma palavra que, assim como Valinhos, tem origem em Veneta. ‘Terún’ é aquele que vem da terra, que trabalha a terra. Palavra cujos primeiros registros remetem aos anos do ressurgimento italiano, quando assim se referiam os aristocratas à parcela da população que trabalhava na agricultura. Inicialmente sem conotação negativa, mas tampouco positiva, ‘Terrone’ estava para o italiano muito como o termo ‘Camponês’ está para o brasileiro. Curiosamente, foram justamente eles, os agricultores do nordeste italiano, que imigraram para as novas terras na América do Sul fugindo da miséria. Valinhos, então ainda um distrito de Campinas, recebe em massa parte desses imigrantes.

Foto: Tomás Cajueiro

Passaram-se os anos e a Itália, assim como Valinhos, se urbanizou, criou indústrias, se tornou uma potência. Essa nova Itália, pós guerra, vê ressurgir e ganhar força e um novo uso a palavra ‘Terrone’. Dessa vez não mais neutra e objetiva, mas com forte carga semântica negativa. ‘Terrone’ se refere ao imigrante do sul do país que foi para o rico e industrializado norte atrás de oportunidades. São massas de pessoas que vivem nas periferias de Milão, Turim, Gênova e tantas outras cidades da Itália setentrional. Pejorativamente, esses imigrantes são chamados ‘Terroni’. No século XX, o termo ‘Terrone’ é um insulto.  É ser preguiçoso, ser ignorante.

O fotógrafo. 

Jornalista, fotógrafo e produtor cultural, Tomás Cajueiro nasceu em Sete Lagoas MG e chegou em Valinhos ainda criança. Formado em  Ciências da Comunicação pela Universidade para Estrangeiros de Perugia, Itália, fez mestrado em Ciências Políticas pela Universidade de Manchester, na Inglaterra e MBA em Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

Além da mostra ‘Terùn’, Cajueiro está expondo ‘Catadores da Esperança’, um inédito trabalho com os catadores das cooperativas de reciclagem de Campinas. Essa segunda exposição será nos dias 13 e 14 de abril no CIS Guanabara.

Sobre a Virada Sustentável Campinas

A Virada Sustentável Campinas é um projeto viabilizado pelo Ministério da Cidadania por meio da Lei Rouanet, com produção da 3 Apitos Cultura + Esporte e realização do Instituto Virada Sustentável. Durante os dias 13 e 14 de abril, o evento apresentará ao público uma série de atrações, todas gratuitas, com o objetivo de divulgar formas de se adotar um estilo de vida sustentável na sociedade e nas cidades. As ações são baseadas a partir dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos como agenda global pela ONU. Diversas atividades de variadas modalidades, tais como artes visuais, dança, debates, feiras e oficinas, por exemplo, estarão à disposição da população.

Serviço:
Nome da exposição: Terùn
Fotógrafo: Tomás Cajueiro
Data: 12 de abril
Horário: das 8.00 às 21.00
Local:CACC – Centro  de Artes, Cultura e  Comércio. (Ao lado da rodoviária)

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