Faz um bom tempo que chamo a atenção para a atual conjuntura local: Valinhos, de certa forma, ficou paralisada nas últimas duas décadas em relação a potencialização de suas atividades produtivas. Nenhuma política robusta para atrair investimentos no setor foi desenvolvida pelo poder público, nem para manter os que já se encontravam aqui. Como resultado, registramos a saída, nada mais, nada menos, da transnacional WestRock, com um saldo negativo de aproximadamente 450 postos de trabalho. Muito para um município do porte de Valinhos.

É lógico que essa questão também depende da situação econômica nacional. O Brasil tem amargado quedas expressivas da indústria na geração do produto interno bruto, atribuído, sobretudo, a uma baixa capacidade competitiva do parque fabril nacional, e a uma ausência de tecnologias associadas ao processo produtivo, capaz de garantir ao país uma posição de destaque. Ao mesmo tempo, setores que poderiam desempenhar um papel decisivo na indústria nacional, como petróleo e gás, foram desarticulados em benefício de interesses escusos, contrários à proposta de construção de um país fortalecido no cenário internacional. Somado a tudo isso, deve-se salientar a baixa qualificação da mão-de-obra, que ainda é um problema estrutural a ser enfrentado. Bem como, cabe destacar a baixa capacidade de investimentos no setor produtivo, tanto público quanto privado. Isto porque ficou clara a opção feita pelo país: alimentar o rentismo voraz do sistema financeiro, permitindo a prática de taxas de juros escorchantes que inviabilizam a produção e o consumo. O resultado não poderia ser outro: produção definhando, subemprego e precarização do trabalho em alta e queda do consumo das famílias.

A recorrência constante destas adversidades estruturais no cenário nacional, deveriam impor aos municípios um esmero ainda maior na busca por soluções. E Valinhos, ignorando alguns importantes predicados, estacionou no tempo. Não se buscou tirar partido de sua localização estratégica no estado de São Paulo, tangenciada por importantes rodovias, ao lado do aeroporto internacional de Viracopos, relativamente próxima da maior metrópole nacional, com fácil contato ao restante do interior e ao polo tecnológico do Vale do Paraíba (via rodovia Dom Pedro I).

Ainda, o município parece não ter compreendido sua inserção no tecnopolo de Campinas, centrado em importantes universidades e centros de pesquisa, geradores de mão de obra qualificada. Parece-me que há um descolamento dessa realidade, sobretudo, quando se observa a política de zoneamento local, negligenciando a alocação de áreas industriais no território municipal. Ao contrário: o zoneamento municipal permitiu certas anomalias urbanísticas, como a implantação de condomínio horizontal de alto padrão ao lado da rodovia Anhanguera – local que deveria servir à atividade produtiva.

Essa questão é bastante sintomática, pois, demonstra a opção feita pelos gestores públicos locais nas últimas duas décadas: a potencialização da especulação imobiliária, com o favorecimento de uma meia dúzia de empresas do setor imobiliário voltadas à construção de loteamentos e condomínios de alto padrão. Algo ilógico quando se considera o potencial produtivo que o município poderia aferir em função de sua localização.
E o pior: não há perspectiva de que haverá mudanças qualitativas neste cenário desolador. Estamos em meio à revisão do atual plano diretor, e o que parece evidente é todo um movimento de bastidores com o intuito de viabilizar a expansão urbana para áreas que o mercado imobiliário adquiriu na passagem dos anos 1990-2000, para reproduzir o atual modelo de cidade: baseado na aprovação quase irrestrita dos chamados enclaves fortificados (condomínios horizontais e loteamentos fechados) em áreas verdes como a Serra dos Cocais, mantenedoras de importantes mananciais que abastecem a população local e regional.

Espero que a atual administração consiga se desvencilhar desse círculo vicioso que tem arrastado Valinhos para trás, com perdas significativas de arrecadação e aumento dos gastos com a manutenção de uma cidade recheada de passivos urbanísticos, sociais, econômicos, ambientais e de mobilidade deixados pelo atual modelo.

A oportunidade está colocada: devemos buscar realocar Valinhos na rota do desenvolvimento inteligente, produtivo, sintonizado com as mudanças estruturais pelas quais os setores de produção têm enfrentado, como a indústria 4.0, conceito que norteará a revitalização dos parques fabris e a uma mudança na lógica industrial no mundo todo daqui em diante.

Mais que isso, espero um olhar atento por parte de nossa Secretaria Econômica para as cadeias produtivas locais, que abarcam atividades no campo com nossa agricultura familiar; na cultura em toda sua potencialidade criativa; no lazer com seus parques e áreas verdes e no turismo com nossa Serra e hospitalidade costumeira. Atividades essas hoje relegadas a segundo plano, mas que o município também apresenta imensa vocação.

Wellington Strabello é geógrafo e professor nas redes pública e particular de Valinhos e Campinas.

 

1 Comentário

  1. PARABÉNS !!! pelo texto. Excelente análise e visão estratégica…. Somente questiono, o quê, eu como um cidadão Valinhense, posso fazer para mudar esse cenário?.

Deixe um comentário

Por favor, digite seu comentário.
Por favor, digite seu nome