Por Claudiney Generoso
Falar sobre violência não é apenas falar sobre o momento em que ela explode diante dos nossos olhos. Violência também é aquilo que acontece antes, quando faltam políticas públicas, quando falta proteção e quando o Estado deixa de estar presente exatamente onde deveria estar.
A violência começa muito antes da manchete policial.
Ela começa quando uma mulher denuncia e não encontra acolhimento. Quando uma criança pede ajuda e o sistema falha. Quando uma família busca apoio e recebe silêncio institucional. Quando um adolescente abandona a escola porque a pobreza venceu antes da oportunidade. Quando a população em situação de rua passa a ser tratada como problema de paisagem urbana, e não como expressão concreta da desigualdade social.
A omissão também agride.
Depois de mais de duas décadas atuando na Assistência Social, acompanhando famílias, crianças, adolescentes e mulheres em situação de vulnerabilidade, aprendi que a violência raramente começa no ato extremo. Ela começa no abandono. Começa quando o poder público deixa de proteger quem mais precisa e transforma direitos em espera, burocracia e ausência.
Em janeiro de 2026, Valinhos contabilizou 2.758 famílias beneficiadas pelo Programa Bolsa Família, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Isso significa milhares de pessoas que dependem diretamente da política pública de transferência de renda para garantir o básico: alimentação, dignidade e sobrevivência.
Esse número não revela apenas pobreza. Ele revela uma cidade que convive com profundas desigualdades, ainda que muitas vezes prefira escondê-las atrás de indicadores de qualidade de vida e discursos de eficiência administrativa.
Valinhos costuma ser apresentada como cidade organizada, desenvolvida e com boa qualidade de vida. Mas a pergunta que precisa ser feita é: qualidade de vida para quem?
Para quem depende da rede pública, a realidade muitas vezes é outra: filas de espera, serviços sobrecarregados, equipes reduzidas, dificuldade de acesso à saúde mental, ausência de políticas permanentes para a população em situação de rua, fragilidade na proteção de crianças e adolescentes vítimas de violência e uma rede de proteção que nem sempre consegue responder na velocidade que a urgência exige.
E, quando falamos de violência, essa lentidão custa caro.
Não existe enfrentamento real da violência sem fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social. Não existe proteção integral sem CRAS estruturado, CREAS fortalecido, Conselho Tutelar valorizado e profissionais com condições dignas de trabalho. Não existe prevenção sem investimento contínuo em políticas públicas.
A lógica da resposta tardia sempre será mais cara — socialmente, financeiramente e humanamente.
Esperar a violência acontecer para depois agir não é gestão. É omissão institucional.
Parte do debate público ainda insiste em tratar a pobreza como falha individual, e não como resultado de desigualdades estruturais. Como se bastasse esforço pessoal para superar aquilo que é produzido por ausência histórica de oportunidades, renda, moradia, acesso e proteção.
Quando o poder público trata a proteção social como gasto, e não como investimento, ele faz uma escolha.
Quando desmonta serviços, precariza equipes e enfraquece políticas públicas, não está apenas economizando recursos, está autorizando que a violência continue acontecendo de forma silenciosa, cotidiana e cruel.
Segurança pública não se faz apenas com viatura e repressão.
Faz-se com escola funcionando, com permanência escolar garantida, com assistência social presente no território, com saúde mental acessível, com políticas para a juventude, com enfrentamento à violência contra as mulheres, com moradia, com renda e com dignidade.
A cidade que aparece na propaganda nem sempre é a mesma vivida por quem depende diariamente das políticas públicas para sobreviver.
É preciso coragem para enfrentar essa contradição.
Não podemos continuar sustentando uma imagem de cidade-modelo enquanto parte da população segue invisível, sobrevivendo entre a negligência institucional e a indiferença social.
Defender proteção social não é discurso ideológico, é compromisso com a vida e com os direitos humanos. Porque, quando o Estado se omite, ele também escolhe quem vai sofrer. E combater essa omissão não é apenas uma decisão técnica, mas uma escolha profundamente política.


