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A elite paulista e sua essência autoritária

11 de junho de 2026 10 minutos de leitura
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Por Adauto Damasio*

𝗘𝗹𝗶𝘁𝗲 𝗽𝗮𝘂𝗹𝗶𝘀𝘁𝗮 𝗻𝘂𝗻𝗰𝗮 𝘀𝗲 𝗽𝗿𝗲𝗼𝗰𝘂𝗽𝗼𝘂 𝗰𝗼𝗺 𝗰𝗼𝗿𝗿𝘂𝗽𝗰̧𝗮̃𝗼, 𝗾𝘂𝗲 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗳𝗼𝗶 𝗺𝗲𝗿𝗮 𝗱𝗲𝘀𝗰𝘂𝗹𝗽𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗺𝗮𝗻𝘁𝗲𝗿 𝘀𝗲𝘂 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗿 𝗲𝘅𝗰𝗹𝘂𝗱𝗲𝗻𝘁𝗲 𝗲 𝗲𝘂𝗴𝗲𝗻𝗶𝘀𝘁𝗮. 𝗔𝗹𝗲́𝗺 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗼, 𝘂𝘀𝗼𝘂 𝗼 𝗹𝗶𝗯𝗲𝗿𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗳𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗮 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗲𝘅𝗲𝗿𝗰𝗲𝗿 𝘀𝗲𝘂 𝗽𝗼𝗱𝗲𝗿 𝗱𝗲𝘀𝗽𝗼́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗲 𝗮𝗰𝘂𝗺𝘂𝗹𝗮𝗿 𝗿𝗶𝗾𝘂𝗲𝘇𝗮𝘀.

A narrativa tradicional apresenta São Paulo como a locomotiva do Brasil. Entretanto, uma leitura crítica da história nacional permite sustentar uma hipótese distinta: a elite paulista tem sido uma das principais responsáveis pela construção e preservação dos mecanismos que produziram o atraso social, político e econômico brasileiro.

Desde a Independência, passando pela República Velha, pela resistência ao varguismo, pelo apoio ao golpe de 1964 e pela oposição recorrente a políticas redistributivas após 1988, observa-se uma constante histórica: a defesa dos privilégios de grupos dominantes acima da democratização da riqueza, da cidadania e do poder político. A modernização promovida por essa elite foi real, mas profundamente conservadora, pois transformou a economia sem alterar substancialmente as estruturas de exclusão herdadas da escravidão.

Como observou Caio Prado Júnior, a formação econômica brasileira foi marcada pela subordinação da produção aos interesses externos e pela preservação de estruturas sociais profundamente desiguais. A elite cafeeira paulista tornou-se a expressão mais acabada desse modelo.
A Independência de 1822 preservou a grande propriedade e a escravidão. A Abolição de 1888 foi conquistada pela luta dos escravizados, pelo movimento abolicionista e pelas transformações econômicas do período, não pela iniciativa dos proprietários. A República proclamada em 1889 consolidou o poder das oligarquias agrárias, muitas delas inconformadas com o fim da escravidão, que passaram a controlar o Estado em benefício próprio. Durante a Primeira República, São Paulo tornou-se o centro desse sistema, combinando coronelismo, fraude eleitoral, corrupção aberta e uso intensivo dos recursos públicos para proteger os interesses privados dos grandes cafeicultores.

A expansão econômica paulista entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX esteve associada à concentração fundiária, à marginalização dos libertos e à violência contra populações indígenas no interior do estado. Enquanto pregava o liberalismo econômico, a elite paulista recorria sistematicamente ao Estado para proteger seus negócios. O Convênio de Taubaté tornou-se símbolo dessa contradição ao socializar prejuízos privados por meio dos cofres públicos. Nesse sentido, a reflexão de Raymundo Faoro sobre a apropriação do Estado por grupos privilegiados ajuda a compreender como o discurso liberal frequentemente serviu para ocultar mecanismos de reprodução do poder oligárquico. O liberalismo defendido pelas elites paulistas mostrou-se menos um compromisso com a liberdade econômica e política do que uma ferramenta para preservar privilégios quando conveniente.

Ao mesmo tempo, a expansão da fronteira agrícola paulista ocorreu mediante a expulsão e o extermínio de populações indígenas em vastas áreas do oeste do estado, processo frequentemente celebrado como progresso pela historiografia tradicional, mas que representou a destruição de sociedades inteiras em benefício da acumulação privada.

A Revolução de 1930 rompeu a hegemonia paulista e inaugurou um longo período de conflito entre projetos distintos de país. A reação das oligarquias encontrou expressão não apenas nos partidos políticos e associações empresariais, mas também em importantes veículos de comunicação. O jornal O Estado de S. Paulo tornou-se um dos principais formuladores e difusores da visão de mundo das elites paulistas. Embora sua trajetória apresente contradições e momentos de confronto com governos autoritários, sua linha editorial historicamente se alinhou à defesa dos interesses dos grupos econômicos dominantes do estado, posicionando-se contra projetos que ampliavam a intervenção estatal, fortaleciam organizações populares ou buscavam redistribuir renda e poder. A atuação do jornal ao longo do século XX evidencia como parte da grande imprensa brasileira funcionou não apenas como observadora dos acontecimentos, mas como agente político comprometido com a preservação da ordem social existente.

Um aspecto frequentemente ignorado desse processo foi a incorporação de parcelas significativas da imigração europeia ao universo cultural e político das elites paulistas. A partir do final do século XIX, milhões de europeus, especialmente italianos, chegaram ao Brasil e se concentraram em São Paulo. Muitos viveram inicialmente condições duras de trabalho, mas parte de seus descendentes ascendeu socialmente ao longo do século XX, sobretudo nas cidades do interior. Nesse processo, não apenas melhoraram sua posição econômica, mas também adotaram valores e interesses das classes dominantes locais.

A ideologia do branqueamento, amplamente difundida pelas elites da época, contribuiu para a construção de uma identidade social que aproximava esses grupos dos setores dirigentes e os afastava simbolicamente das populações negras, indígenas e dos trabalhadores mais pobres. Isso ajuda a compreender por que o conservadorismo político encontrou bases tão sólidas em diversas regiões do interior paulista. A defesa da hierarquia social, a resistência a políticas redistributivas, a oposição às ações afirmativas e a persistência de manifestações racistas e xenófobas encontram parte de suas raízes nesse processo histórico de identificação cultural com os interesses das elites regionais.

Há ainda um elemento decisivo nessa trajetória: a elite paulista jamais formulou um projeto consistente de nação independente. Desde os tempos do café, sua prosperidade esteve ligada à exportação e à integração subordinada aos centros do capitalismo mundial. Primeiro a Europa, sobretudo a Inglaterra; posteriormente os Estados Unidos. Sua referência econômica, cultural e política quase sempre esteve fora do país. Diferentemente dos setores nacionalistas que emergiram em diferentes momentos da história brasileira, defendendo industrialização, soberania econômica e fortalecimento do mercado interno, a elite paulista frequentemente encarou o Brasil como plataforma de negócios e não como projeto coletivo de desenvolvimento nacional. Essa característica ajuda a explicar sua resistência histórica a políticas voltadas para a integração social da população brasileira e para a construção de uma economia menos dependente dos interesses externos.

Essa mesma trajetória contribui para compreender as recorrentes aproximações de parcelas das elites paulistas com correntes autoritárias. Nos anos 1930, diversos setores conservadores demonstraram simpatia por experiências europeias que prometiam conter a mobilização popular, os conflitos sociais e o avanço das organizações de trabalhadores. Essa aproximação encontrou terreno fértil também em parcelas da comunidade italiana estabelecida em São Paulo. Como demonstrou João Fábio Bertonha em seus estudos sobre o tema, especialmente na obra O Fascismo e os Imigrantes Italianos no Brasil, o regime de Benito Mussolini desenvolveu intensa atividade de propaganda entre emigrados italianos e seus descendentes, encontrando receptividade em determinados setores das classes médias urbanas e rurais.

Embora a maioria dos imigrantes italianos não tenha aderido ao fascismo, a circulação dessas ideias contribuiu para fortalecer valores autoritários que encontrariam eco em segmentos da sociedade paulista ao longo do século XX. No século XXI, parte dessas elites voltou a apoiar lideranças e movimentos marcados pelo autoritarismo, pelo ultraliberalismo econômico e pelo combate às políticas de inclusão social. Mais do que episódios isolados, tais posicionamentos revelam uma lógica histórica recorrente: quando a democratização ameaça privilégios consolidados, a adesão aos princípios democráticos torna-se secundária. A defesa da ordem social existente passa a justificar soluções de exceção, discursos de ódio e formas contemporâneas de extremismo político.

Após a Constituição de 1988, esse padrão reapareceu diante da ampliação dos direitos sociais, da criação e fortalecimento do Sistema Único de Saúde, da expansão da rede educacional, das políticas de transferência de renda e das ações afirmativas. Setores expressivos das elites paulistas e de suas bases sociais reagiram a essas transformações como se a inclusão de milhões de brasileiros representasse uma ameaça à ordem nacional. Os estudos de Lilia Moritz Schwarcz mostram como as hierarquias construídas durante a escravidão sobreviveram à Abolição e continuam influenciando a vida política brasileira.

Sob essa perspectiva, o atraso nacional não decorre da falta de desenvolvimento econômico, mas da permanência de uma modernização conservadora que aceita a expansão da riqueza, desde que ela não seja acompanhada pela democratização do poder. A elite paulista, apoiada por suas instituições econômicas, políticas, midiáticas e culturais, desempenhou papel central nesse processo. Longe de representar a vanguarda da nação, tornou-se uma das principais forças de resistência à construção de um Brasil mais igualitário, democrático e soberano.

Adauto Damasio é Graduado e Mestre em História pela Unicamp, Pedagogo pela Uninter. Professor das redes públicas municipais de Valinhos e Campinas e do Colégio Alethus. Valinhense desde 1964.
TAGGED: Adauto Damasio, Elite Paulista, Historia, opinião, República Velha, São Paulo

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Heriberto Pozzuto 11 de junho de 2026 11 de junho de 2026
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