PROESP pede suspensão imediata da venda da antiga Coudelaria e alerta que urbanização da área pode agravar enchentes, intensificar a crise climática e acelerar a conurbação entre os dois municípios
A poucos dias do leilão marcado para 31 de julho, a mobilização em defesa da Fazenda Remonta ganhou um novo e importante capítulo. A Sociedade Protetora da Diversidade das Espécies (PROESP) ajuizou uma Ação Civil Pública, com pedido de tutela de urgência, para suspender a venda da Gleba B da antiga Coudelaria, uma área de 162 hectares localizada entre Valinhos e Campinas. Na ação, a entidade sustenta que o imóvel não pode ser tratado como um simples ativo imobiliário e que sua alienação representa um risco ambiental irreversível para toda a Região Metropolitana de Campinas.
A iniciativa se soma a um movimento que vem crescendo nos últimos meses e reúne ambientalistas, pesquisadores, moradores, brigadistas, entidades da sociedade civil e conselhos municipais de meio ambiente na tentativa de impedir a venda da maior área verde pública existente entre Valinhos e Campinas. Nas últimas semanas, os Conselhos Municipais de Meio Ambiente dos dois municípios aprovaram, por unanimidade, moções pedindo a suspensão do leilão. Paralelamente, um abaixo-assinado vem mobilizando milhares de pessoas em defesa da preservação da área, considerada estratégica para o futuro ambiental da região.
Segundo a entidade, transformar a área em um empreendimento imobiliário significará comprometer serviços ambientais fundamentais para milhares de moradores. Entre os impactos apontados estão o agravamento das enchentes já registradas na Avenida Invernada, a expansão das ilhas de calor, a redução da permeabilidade do solo, o aumento do risco de queimadas, a fragmentação dos habitats da fauna silvestre e a maior incidência de doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, favorecidas pelos alagamentos.
Na ação, a PROESP afirma que a Fazenda Remonta desempenha funções ambientais que extrapolam em muito o valor econômico atribuído ao imóvel. Além de atuar como uma verdadeira infraestrutura verde, a área representa hoje a principal barreira natural contra a conurbação entre Valinhos e Campinas, preservando um dos últimos grandes corredores ecológicos da região. Sua vegetação contribui para a infiltração das águas da chuva, reduz o risco de enchentes na bacia do Córrego Invernada, protege nascentes, melhora a qualidade do ar, ameniza as temperaturas e mantém a conexão entre a Floresta Estadual Serra d’Água e a Estação Ecológica de Valinhos.
Outro ponto central da ação é o questionamento ao laudo que estabeleceu em R$ 90 milhões o valor mínimo para o leilão. A PROESP sustenta que o estudo reduziu indevidamente as Áreas de Preservação Permanente (APPs), utilizando faixas de proteção inferiores às previstas pela legislação ambiental. Na avaliação da entidade, isso ampliou artificialmente a área considerada aproveitável para empreendimentos imobiliários, elevando seu potencial econômico.
A ação também contesta uma cláusula do edital que garante à Fundação Habitacional do Exército (FHE) participação financeira sobre eventual valorização futura do imóvel caso a legislação municipal venha a permitir loteamentos urbanos. Para a PROESP, essa previsão cria um incentivo econômico incompatível com a proteção ambiental e reforça o caráter especulativo da operação. a própria modelagem do negócio contraria a legislação que criou a Fundação Habitacional do Exército, ao permitir uma operação com forte potencial de especulação imobiliária. A estimativa apresentada na ação indica que o empreendimento poderia gerar receitas superiores a R$ 700 milhões com a comercialização de lotes, valor muito superior ao preço mínimo fixado para o leilão.
A própria modelagem do negócio contraria a legislação que criou a Fundação Habitacional do Exército, ao permitir uma operação com forte potencial de especulação imobiliária. A estimativa apresentada na ação indica que o empreendimento poderia gerar receitas superiores a R$ 700 milhões com a comercialização de lotes, valor muito superior ao preço mínimo fixado para o leilão.
Para o advogado da PROESP, Leonardo Pillon, a discussão ultrapassa os limites de uma simples negociação patrimonial e envolve diretamente a proteção da população diante da crise climática.
“A Fazenda Remonta não pode ser tratada como um ‘balcão de negócios’ pelo Exército. O bom combate que a tropa deve travar é contra a crise climática e as enchentes, não a favor da especulação imobiliária. Esperamos que o Poder Judiciário reconheça a urgência climática e impeça um dano irreversível à população e ao meio ambiente.”
A ação destaca ainda que a Fazenda Remonta foi reconhecida pelo Município de Valinhos como Patrimônio Material Ambiental, por meio da Lei Municipal nº 6.924/2026, além de estar inserida na zona de amortecimento da Estação Ecológica de Valinhos, uma unidade de conservação de proteção integral. Apesar disso, segundo a PROESP, o edital do leilão abre caminho para um processo de urbanização incompatível com a legislação ambiental e com o próprio Plano Diretor de Valinhos.
Ao final, a entidade pede que a Justiça reconheça a emergência climática como fato público e notório, suspenda imediatamente o leilão e determine que a União destine a área à implantação de políticas de adaptação às mudanças climáticas, valorizando sua função ecológica em vez de sua exploração imobiliária.
Caso a liminar seja concedida, o leilão previsto para 31 de julho poderá ser suspenso antes mesmo da abertura das propostas. A decisão é aguardada com expectativa por entidades ambientalistas e por moradores que veem na Fazenda Remonta não apenas uma extensa área verde, mas um patrimônio ambiental estratégico para garantir água, biodiversidade, equilíbrio climático e qualidade de vida às futuras gerações de Valinhos, Campinas e de toda a Região Metropolitana.

