Artista de Valinhos esteve entre sete brasileiros convidados a retratar Nossa Senhora Aparecida nas comemorações dos 300 anos do encontro da imagem; obra em óleo sobre tela permanece no acervo do Santuário Nacional
Há quase uma década, uma obra nascida das mãos de um artista de Valinhos passou a integrar o acervo de um dos maiores símbolos da religiosidade brasileira: o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
Em 2017, quando o Brasil celebrou os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul, o artista plástico valinhense Jerci Maccari esteve entre sete artistas brasileiros selecionados para produzir trabalhos inspirados na Padroeira do Brasil.
O grupo reuniu nomes de diferentes vertentes das artes, entre eles o cartunista Mauricio de Sousa, criador da Turma da Mônica, além de pintores como Rafael Murió e o catarinense Luciano Martins.
Maccari respondeu ao convite com aquilo que conhece profundamente: a pintura e as raízes culturais do interior. Em óleo sobre tela, retratou Nossa Senhora Aparecida envolvida por elementos ligados à tradição, à religiosidade popular e à fé caipira e regional.
Nascia assim uma obra que ganharia um nome muito menos solene, e justamente por isso muito mais afetivo: “Dona Cidinha”. Desde as comemorações do tricentenário, a pintura permanece guardada no acervo do Santuário de Aparecida.

Para Maccari, participar daquele momento significou muito mais do que produzir uma nova tela. Na época, o artista definiu o convite como um desafio prazeroso e considerou estar entre apenas sete artistas escolhidos para a celebração o coroamento de uma trajetória que, já naquele momento, chegava aos 50 anos.
Mas talvez seja outra declaração de Maccari que melhor revele o sentimento existente por trás da pintura.
“O que ninguém imagina é a tamanha intimidade que tenho com ela. Sempre que me surgia a dúvida sobre o que pintar, apelava à Dona Cidinha, e as ideias clareavam”, contou o artista.
De imagem encontrada nas águas à Padroeira do Brasil
A história que inspirou Maccari atravessa mais de três séculos. A devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu a partir do encontro da pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição por pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1717.
Com o passar das décadas, a devoção se espalhou pelo país. Em 1904, a imagem foi solenemente coroada, numa cerimônia autorizada pelo papa Pio X. Décadas mais tarde viria o reconhecimento que a transformaria oficialmente em um dos maiores símbolos religiosos brasileiros.
Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira Principal do Brasil, atendendo ao pedido dos bispos e à devoção já profundamente difundida entre os brasileiros. A decisão foi celebrada solenemente em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro, então capital federal, em uma grande manifestação religiosa que reuniu uma multidão.
Décadas depois, em 1980, durante sua primeira viagem ao Brasil, o papa João Paulo II esteve em Aparecida e recordou essa trajetória: a coroação de 1904, a proclamação como Padroeira em 1930 e o crescimento contínuo das peregrinações ao Santuário.
Um pedacinho de Valinhos em Aparecida
É justamente nesse universo de fé, história e cultura popular que a obra de Jerci Maccari encontrou seu lugar.
Entre tantas representações de Nossa Senhora Aparecida produzidas ao longo de três séculos, a “Dona Cidinha” de Maccari carrega um pouco da identidade do interior paulista e também da história artística de Valinhos.
Desde 2017, ela permanece em Aparecida.
E talvez esteja aí a dimensão mais bonita dessa história: um artista de Valinhos deixou no Santuário Nacional não apenas uma pintura, mas um pedaço de sua própria trajetória e da arte produzida na cidade, diante de um dos maiores símbolos da fé popular brasileira.
