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Preservação do Casarão do Vale Verde diz respeito à relação de Valinhos com sua própria memória

15 de outubro de 2026 9 minutos de leitura
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PRESERVAR NÃO É GLORIFICAR: PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E CIDADANIA

Regina Márcia Moura Tavares
Antropóloga

A história da humanidade está profundamente marcada por relações de dominação, exploração e violência. Desde a Antiguidade, guerras de conquista produziram populações escravizadas, submetidas ao trabalho forçado e privadas de sua liberdade. No Brasil, a escravidão de africanos e seus descendentes constituiu um dos fundamentos da organização econômica e social durante mais de três séculos, deixando marcas profundas que ainda se manifestam nas desigualdades de nossa sociedade.

Reconhecer essa realidade não é apenas uma exigência da consciência histórica, mas um compromisso ético com a dignidade humana. O desenvolvimento da economia açucareira no Nordeste, assim como a extraordinária expansão da cafeicultura no Sudeste brasileiro, esteve profundamente associado ao trabalho de homens, mulheres e crianças escravizados. A riqueza acumulada pelos grandes proprietários não pode ser compreendida sem o reconhecimento daqueles que, privados de liberdade, contribuíram decisivament para sua produção.
Entretanto, uma questão merece nossa reflexão: reconhecer as injustiças do passado significa negar a preservação dos testemunhos materiais da sociedade que as produziu?

Penso exatamente o contrário.

A preservação do patrimônio cultural não constitui um ato de glorificação de seus antigos proprietários, tampouco uma aprovação das relações econômicas, políticas e sociais de seu tempo. Constitui, antes, uma oportunidade de conhecer criticamente o passado, compreender suas contradições e identificar os processos históricos que contribuíram para a formação da sociedade em que vivemos.

Preservar não é glorificar. Preservar é conhecer para compreender e compreender para transformar. Essa reflexão torna-se particularmente oportuna em nossa região de Campinas e Valinhos, cuja história está profundamente vinculada à expansão da cafeicultura no século XIX.

O Casarão do Marquês de Três Rios, em Valinhos, cuja preservação vem mobilizando cidadãos preocupados com a memória local, constitui um exemplo significativo dessa questão. Sua permanência na paisagem não precisa representar uma homenagem à riqueza ou ao poder de seus antigos proprietários. Pode, ao contrário, transformar-se em oportunidade privilegiada para investigar e apresentar à população as condições históricas, econômicas e humanas que possibilitaram a formação daquela riqueza.

Quem construiu o casarão? Quem trabalhou nas terras que o cercavam? Como se organizava a produção? Quais eram as relações entre proprietários, trabalhadores escravizados e, posteriormente, trabalhadores livres? Que conhecimentos, técnicas, práticas culturais e experiências humanas participaram da construção daquela sociedade?

Essas são perguntas que um patrimônio preservado pode suscitar eajudar a responder. Um casarão restaurado, acompanhado de pesquisas históricas documentação e ações educativas, poderá revelar não apenas a trajetória de uma família proprietária, mas também a vida daqueles que trabalharam na fazenda, suas condições de existência, suas resistências, seus saberes e suas contribuições para a formação da cultura regional.

A história dos escravizados não deve permanecer à sombra das paredes senhoriais. Ela precisa ganhar visibilidade, voz ereconhecimento. Não se trata de escolher entre a memória dos proprietários e a memória dos escravizados. Trata-se de compreender uma sociedade em sua complexidade, sem silenciar suas contradições.

Naturalmente, durante muito tempo, as políticas de preservação privilegiaram os monumentos associados ao poder político, religioso e econômico: palácios, igrejas, casarões, fortalezas e edificações monumentais. A vida cotidiana, os conhecimentos populares, as manifestações culturais das comunidades menos favorecidas e as experiências da infância permaneceram frequentemente à margem do reconhecimento patrimonial. Essa visão restritiva sempre me pareceu insuficiente.

Como antropóloga, venho defendendo, há décadas, uma concepção ampliada de patrimônio cultural, que reconheça não apenas os grandes monumentos, mas as múltiplas manifestações por meio das quais os grupos humanos constroem suas identidades, transmitem conhecimentos e atribuem significado à própria existência.

Foi dentro dessa perspectiva que desenvolvi o projeto “Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade”, dedicado ao reconhecimento da cultura lúdica da infância como parte fundamental da herança cultural dos povos.

Divulgado no Brasil, em países da América Latina e da Europa, com apoio da OEA e da UNESCO, esse trabalho procurou demonstrar queo patrimônio cultural não pertence exclusivamente aos poderosos, aos vencedores ou aos grupos socialmente privilegiados.

Ele se encontra também nas brincadeiras das crianças, nas tradições transmitidas entre gerações, nos conhecimentos populares, nas expressões artísticas, nos modos de fazer e nas experiências cotidianas de comunidades frequentemente esquecidas pela história oficial.

A ampliação do conceito de patrimônio, entretanto, não exige o abandono dos bens anteriormente reconhecidos. Exige suareinterpretação crítica e sua integração a uma compreensão mais abrangente da experiência humana. É justamente essa perspectiva que considero necessária quando discutimos a preservação de antigos casarões de fazendas cafeeiras.

Não devemos transformá-los em monumentos de exaltação de uma aristocracia rural, mas tampouco permitir que desapareçam sob o argumento de que representam uma sociedade profundamente desigual. O desaparecimento desses testemunhos não elimina a escravidão dopassado. Pode, isto sim, eliminar importantes testemunhos materiais que permitem investigá-la compreendê-la e transmiti-la criticamente às novas gerações.

Uma política cultural verdadeiramente comprometida com a cidadania precisa preservar, pesquisar e interpretar os bens materiais e imateriais que constituem a herança de uma comunidade, incluindo aqueles que testemunham seus conflitos, injustiças e contradições. Mais ainda: precisa garantir a participação da população na definição
dos significados e dos usos sociais desse patrimônio.

Defendo há muito tempo que a preservação da herança cultural constitui condição essencial para o exercício consciente da cidadania e para a construção de um desenvolvimento autorreferido, e não simplesmente mimético.

Uma comunidade que desconhece sua própria história, que não reconhece os processos responsáveis por sua formação e que permite o desaparecimento dos testemunhos de sua trajetória corre o risco de reproduzir modelos de desenvolvimento alheios à sua realidade, às suas necessidades e às suas possibilidades.

Desenvolver-se não significa apenas crescer economicamente, multiplicar construções ou modernizar espaços urbanos. Significa também fortalecer a capacidade coletiva de compreender o passado, interpretar o presente e decidir, conscientemente, os rumos do futuro.

É nesse sentido que considero a preservação do Casarão do Marquês de Três Rios uma questão que ultrapassa os limites de uma edificação histórica. Ela diz respeito à relação que Valinhos deseja estabelecer com sua própria memória e com as gerações que virão.

Que o casarão seja preservado, portanto, não para perpetuar privilégios, mas para permitir que a sociedade conheça as condições em que eles foram construídos. Que suas paredes não silenciem o sofrimento dos escravizados, mas ofereçam oportunidades para que suas histórias sejam pesquisadas, reconhecidas e compartilhadas.

Que a preservação não seja um exercício de nostalgia, mas um instrumento de conhecimento, educação, participação social e desenvolvimento. Porque uma sociedade não se torna mais justa apagando os testemunhos de suas injustiças, mas aprendendo a reconhecêlas, compreendê-las e impedir que se repitam. E porque um povo que conhece criticamente sua herança cultural está mais preparado para construir, com autonomia e responsabilidade, o seu próprio futuro.

Regina Márcia é antropóloga, professora universitária aposentada,
especialista em Preservação do Patrimônio Imaterial, membro da
Rede Acadêmica em Patrimônio Imaterial da América Latina e
Caribe – UNESCO, da ACL, do IHGGC e de demais entidades
culturais.
reginamarciacultura.com.br

TAGGED: Antropologa, Casarão do Marques de Tres Rios, Casarão do Vale Verde, Vale Verde, Valinhos

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Heriberto Pozzuto 15 de outubro de 2026 15 de outubro de 2026
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