Por 11 votos a 3, vereadores aprovam proposta do prefeito Franklin Duarte que extingue a estrutura municipal responsável pela orquestra. Músicos levaram instrumentos ao plenário, receberam manifestações de solidariedade e se emocionaram com a decisão.
A noite de terça-feira, 27 de outubro, ficará marcada na história cultural de Valinhos. Sob protestos, manifestações de indignação e muita emoção, a Câmara Municipal aprovou, por 11 votos favoráveis e apenas três contrários, a proposta do prefeito Franklin Duarte (PL) que extingue a estrutura legal responsável pela manutenção da Orquestra Jazz Sinfônica de Valinhos.
Votaram contra o projeto os vereadores Alécio Cau (PSB), Marcelo Yoshida (PT) e Simone Bellini (União Brasil). A aprovação, em segunda discussão, encerra a tramitação legislativa da proposta, que revoga a legislação responsável pela sustentação do Corpo Musical do Município.
Mas a sessão não foi marcada apenas pelos discursos e votos. Os músicos compareceram ao plenário levando seus instrumentos e, durante o intervalo dos trabalhos, executaram composições do repertório da orquestra, transformando a manifestação em um ato de defesa da cultura.
O Hino Nacional e a emoção no plenário
O momento mais emocionante da noite aconteceu quando os integrantes da Jazz Sinfônica começaram a executar o Hino Nacional Brasileiro.
A apresentação levou os vereadores a se levantarem e acompanharem o hino, em uma cena carregada de simbolismo: enquanto a Câmara decidia pelo encerramento da estrutura municipal que mantém a orquestra, os próprios músicos demonstravam, com seus instrumentos, a importância do trabalho que realizam.
A manifestação ganhou ainda mais força com a presença de representantes da cultura de Valinhos.
Entre eles estava Sapo Musselli, baixista e líder da histórica Banda do Brejo, que compareceu em solidariedade aos integrantes da Jazz Sinfônica. Sua declaração resumiu o sentimento de quem defendia a continuidade do grupo: “Se não tem verba, tem que arrumar, o que não pode é acabar com a Orquestra.”
Célio Turino, historiador e ex-secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura também acompanhou a sessão, empunhando um cartaz com um pedido direto aos parlamentares: “Vereadores, votem não à extinção da Jazz”.
Declarações de vereadores provocam indignação
A sessão também foi marcada por manifestações de vereadores que provocaram reações negativas entre os músicos e demais presentes.
Ao justificar seu voto favorável à proposta, o vereador Rafa Marques (PL) fez uma referência ao presidente Lula, em declaração interpretada pelos manifestantes como uma provocação aos integrantes da orquestra.
“Eu espero que o painho Lula prepara pelo menos um auxílio para eles, já que é um governo que eles votaram, é o que eles merecem”, afirmou o parlamentar, segundo relato da sessão.
Já o vereador Jairo Passos (PL) sugeriu que os músicos passassem a desenvolver atividades culturais voluntárias, mesmo diante da perda da ajuda de custo que recebiam para integrar a orquestra.
As manifestações aumentaram a tensão de uma sessão já marcada pelo descontentamento dos profissionais da música e de apoiadores da Jazz Sinfônica.
Prefeitura alega custo de R$ 624 mil anuais
A decisão atinge diretamente os 32 músicos que integram a Jazz Sinfônica, cada um recebendo uma ajuda de custo mensal de R$ 1.400, sem vínculo empregatício com a Prefeitura. A administração municipal justifica a extinção do atual modelo alegando que a manutenção da orquestra representaria uma despesa de aproximadamente R$ 624 mil em 2027 e que seria equivalente a 33,59% do orçamento previsto para a Secretaria de Cultura e Turismo.
Segundo a Prefeitura, os recursos permanecerão na área cultural e poderão ser direcionados à ampliação de cursos gratuitos, oficinas, apresentações nos bairros, apoio a artistas locais e outras iniciativas. O secretário de Cultura e Turismo, Fabrício Bizarri, sustenta que a decisão não impede a continuidade artística da orquestra, que poderá buscar financiamento por meio de editais, leis de incentivo, patrocínios e parcerias.
Os músicos, entretanto, contestam os argumentos da administração. Eles afirmam que não foram previamente consultados sobre a proposta e questionam a utilização de dificuldades administrativas como justificativa para extinguir a estrutura municipal.
Entre os problemas apontados está a ausência de um maestro titular desde março de 2026, situação que, segundo os integrantes, não foi solucionada pela Prefeitura apesar dos pedidos apresentados à Secretaria de Cultura.
Lágrimas, protestos e uma noite para a história
Com a confirmação do resultado, a emoção tomou conta dos músicos. Alguns não conseguiram conter as lágrimas diante da perspectiva de encerramento de um trabalho construído ao longo dos anos e que passou a integrar a vida cultural da cidade.
A indignação também se manifestou entre os presentes. O ex-vereador Heriberto Pozzuto protestou em voz alta contra a decisão, classificando a votação como um episódio que entraria para a história da Câmara Municipal como “uma das sessões mais tristes e vergonhosas”.
A aprovação do projeto elimina a estrutura pública que garante a manutenção da Jazz Sinfônica, embora não impeça que seus integrantes continuem desenvolvendo atividades musicais por outros meios.
O resultado também encerra uma mobilização que reuniu músicos, representantes da cultura, entidades e moradores em defesa da continuidade da orquestra como política pública municipal.
Na noite em que os vereadores aprovaram o fim da estrutura que sustenta a Jazz Sinfônica, foram os próprios músicos que deram ao plenário seu momento mais marcante. E fizeram isso da maneira que melhor sabem: com música.
