Flávio Bolsonaro: o Brasil não merece esse retrocesso!
Por Claudiney Generoso
O Brasil tem riquezas minerais estratégicas, milhões de trabalhadores que dependem da Previdência, uma rede de serviços públicos que protege famílias e instituições democráticas construídas ao longo de décadas. O que acontecerá com essas conquistas se Flávio Bolsonaro (PL) chegar à Presidência da República?
A pergunta ganha importância diante das propostas econômicas do candidato, das declarações sobre exploração mineral e legislação ambiental, das discussões sobre mudanças no reajuste de benefícios sociais e da investigação envolvendo recursos destinados ao filme Dark Horse, sobre seu pai, condenado por tentaiva de Golpe de Estado, Jair Bolsonaro.
Não são assuntos isolados. Todos dizem respeito a uma questão fundamental: quem vai se beneficiar das decisões do próximo governo e quem poderá pagar o preço delas?
O debate eleitoral exige mais do que promessas de eficiência, liberdade econômica e combate à corrupção. Exige explicações sobre o destino dos recursos públicos, a proteção dos direitos sociais e a capacidade do Brasil de decidir o próprio futuro.
1. Terras raras: o Brasil vai controlar sua riqueza ou continuar exportando oportunidades?
As terras raras estão entre os recursos mais disputados do século XXI. Esses elementos são utilizados na fabricação de ímãs de alto desempenho, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e tecnologias estratégicas para a indústria e a defesa.
O Brasil possui cerca de um quinto das reservas mundiais de terras raras, segundo levantamento apresentado pela revista Superinteressante em outubro de 2026. Apesar desse potencial, o país ainda tem participação limitada nas etapas de separação, refino e fabricação de produtos tecnológicos de maior valor agregado.
É nesse cenário que a proposta de Flávio Bolsonaro merece atenção.
Em vídeo de campanha, o senador defendeu acabar com o que chamou de “amarras ambientais” para ampliar a exploração dos recursos naturais. Seu programa também propõe atrair capital e tecnologia estrangeiros, acelerar o licenciamento e desenvolver uma cadeia produtiva nacional para os minerais estratégicos.
Uma proposta encaminhada à campanha por apoiadores do PL também prevê a criação de certificados financeiros vinculados a reservas minerais, com remuneração para investidores ao longo da exploração. O modelo, noticiado pela CNN Brasil em setembro, busca antecipar recursos financeiros e organizar a exploração de minerais como nióbio, lítio, grafita e terras raras.
A proposta prevê salvaguardas contra a apropriação estrangeira hostil e mecanismos para estimular o processamento nacional. Portanto, a discussão não pode ser reduzida à afirmação de que o plano simplesmente entrega as reservas ao exterior. A questão é avaliar como o modelo funcionaria, quem controlaria os ativos e quais benefícios efetivamente permaneceriam no país. O problema é que atrair investimentos, por si só, não garante soberania tecnológica.
O Brasil precisa saber quem controlará as etapas mais lucrativas da cadeia produtiva, onde serão instaladas as fábricas, quais tecnologias serão transferidas e quanto da riqueza mineral será convertido em empregos qualificados, ciência, inovação e desenvolvimento regional.
Também é necessário discutir os impactos sobre os territórios, a água, as comunidades locais e o meio ambiente.
O Brasil não pode se contentar em retirar a riqueza do chão e comprar de volta, a preços elevados, a tecnologia fabricada com ela.
Soberania significa ter capacidade de decidir como explorar os recursos nacionais, desenvolver conhecimento próprio e distribuir os benefícios da atividade econômica. Essa discussão precisa estar no centro da política mineral, independentemente de quem governe.
2. Aposentadorias: o que está por trás da discussão sobre cortes de gastos?
Para milhões de brasileiros, a aposentadoria representa o resultado de uma vida inteira de trabalho. Para idosos de baixa renda e pessoas com deficiência, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) pode representar a diferença entre conseguir ou não pagar despesas essenciais.
Por isso, as discussões sobre o ajuste fiscal associado à campanha de Flávio Bolsonaro precisam ser examinadas com atenção, pois em reportagem publicada em 8 de outubro, a Folha de S.Paulo informou que interlocutores da campanha discutiam medidas para reduzir despesas obrigatórias da União, incluindo a possibilidade de desvincular os reajustes da Previdência e do BPC dos ganhos reais do salário mínimo. A reportagem também apontou discussões sobre os pisos constitucionais de gastos com saúde e educação.
O pacote em estudo buscaria uma economia inicial da ordem de 2% do Produto Interno Bruto, aproximadamente R$ 250 bilhões, segundo a publicação.
É importante registrar que essas medidas foram relatadas como propostas em discussão com interlocutores da campanha, e não como regras já aprovadas ou necessariamente incorporadas ao programa oficial.
Publicamente, Flávio afirmou que pretende conceder reajustes das aposentadorias acima da inflação e negou que queira retirar esse direito dos beneficiários. A diferença entre as declarações públicas e as medidas relatadas pela imprensa precisa ser esclarecida.
Atualmente, os benefícios previdenciários e assistenciais vinculados ao salário mínimo acompanham os reajustes do piso nacional. Uma eventual desvinculação dos ganhos reais poderia fazer com que esses benefícios aumentassem menos do que o salário mínimo, ainda que a regra fosse desenhada para preservar a inflação.
Isso não equivale, necessariamente, a reduzir nominalmente o valor recebido. Mas pode representar uma diferença acumulada importante ao longo do tempo. Para quem vive com um salário mínimo, cada reajuste influencia a capacidade de comprar alimentos, medicamentos e pagar contas básicas.
A pergunta, portanto, é objetiva: como a campanha pretende economizar centenas de bilhões de reais e, ao mesmo tempo, garantir que aposentados, pensionistas e pessoas que dependem do BPC não percam poder de compra?
Quem trabalhou a vida inteira tem direito a conhecer as regras que poderão afetar sua renda.
Aposentadorias não podem ser tratadas apenas como números em uma planilha fiscal. São parte da proteção social e da segurança econômica de milhões de famílias.
3. Caso Vorcaro: milhões para um filme e perguntas que precisam de respostas
O financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro, tornou-se outro ponto de questionamento envolvendo Flávio Bolsonaro. O caso envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, e recursos destinados ao projeto. Segundo documentos e informações divulgados pela imprensa, Flávio atuou nas negociações para obter financiamento, enquanto seu irmão Eduardo Bolsonaro teria participado da gestão do dinheiro.
A Polícia Federal investiga a operação e, em 16 de outubro, pediu ao Supremo Tribunal Federal a prorrogação do inquérito por mais 90 dias. Entre as diligências estão perícias contábeis e pedidos de cooperação internacional para obter registros financeiros de entidades no exterior. A investigação procura esclarecer a origem dos recursos, os repasses realizados e as circunstâncias do financiamento.
Em sabatina à TV Globo, Flávio afirmou que não houve nada de errado em solicitar dinheiro a Vorcaro. O senador sustenta que os recursos eram privados e nega irregularidades. É fundamental respeitar a presunção de inocência: uma investigação não equivale a uma condenação. A existência de suspeitas não permite afirmar que houve corrupção comprovada. Mas o interesse público no caso é inegável.
Quando um candidato à Presidência aparece no centro de uma investigação sobre uma operação financeira de grande valor, a sociedade tem o direito de cobrar transparência sobre contratos, registros contábeis, origem dos recursos e destino dos pagamentos.
O caso também levanta uma questão política: como conciliar o discurso de combate à corrupção com a necessidade de esclarecer integralmente uma operação financeira envolvendo um projeto sobre o próprio pai?
A resposta deve vir de documentos, investigações independentes e explicações verificáveis, não de ataques a adversários nem de acusações antecipadas. O combate à corrupção precisa valer para todos, sem privilégios políticos ou familiares.
4. Um Estado menor pode significar menos proteção para quem mais precisa?
A proposta de reduzir despesas públicas também levanta dúvidas sobre o futuro dos serviços utilizados diariamente pela população. O Estado não é apenas uma estrutura administrativa. Para milhões de brasileiros, ele significa atendimento no SUS, escola pública, assistência social, proteção à infância, políticas de habitação e apoio diante de situações de violência e vulnerabilidade.
No Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a falta de recursos pode resultar em equipes incompletas, serviços sobrecarregados e dificuldade para acompanhar famílias que precisam de proteção.
A questão não é defender desperdícios ou privilégios. É saber quais despesas serão reduzidas e se as mudanças comprometerão a capacidade de atendimento.
O mesmo raciocínio vale para saúde e educação. Se os pisos constitucionais forem alterados, será necessário examinar como os recursos serão distribuídos e quais garantias permanecerão para a população.
A experiência brasileira mostra que políticas públicas dependem de financiamento, equipes qualificadas, planejamento e continuidade. Não basta anunciar eficiência sem explicar como ela será alcançada.
Também não é correto afirmar que Flávio tenha anunciado a extinção do SUS, do Bolsa Família ou do BPC. A discussão é sobre as possíveis consequências das medidas fiscais e administrativas em estudo e sobre as garantias que a campanha oferece para preservar a proteção social.
A pergunta que precisa ser respondida é simples: como reduzir despesas sem transferir a conta para quem depende dos serviços públicos?
5. Trabalho: flexibilização para contratar, mas quais garantias para quem trabalha?
Flávio Bolsonaro também defende mudanças nas relações de trabalho, com modalidades de contratação mais flexíveis e medidas para reduzir custos para as empresas. A campanha apresenta essas propostas como instrumentos para ampliar oportunidades de emprego. Entretanto, especialistas ouvidos pelo UOL apontaram falta de detalhes sobre custos, financiamento e estimativas de vagas que seriam geradas por algumas das medidas anunciadas.
A discussão envolve pagamento por hora, contratos com custos reduzidos para determinados grupos e maior espaço para negociações entre empregados e empregadores. O desafio é garantir que a flexibilidade não se transforme em insegurança permanente para quem vive do salário.
O Brasil precisa de empregos, mas também precisa de remuneração digna, proteção social e condições adequadas de trabalho. Para pessoas com pouca capacidade de negociação, mudanças nas regras podem ampliar a vulnerabilidade, dependendo das garantias adotadas.
A pergunta não é se o mercado de trabalho precisa mudar. É como gerar oportunidades sem enfraquecer a proteção de quem trabalha.
6. Meio ambiente: desenvolvimento a qualquer preço?
As declarações de Flávio sobre a legislação ambiental também provocaram debate. Em outubro, a Folha de S.Paulo noticiou que o candidato prometia flexibilizar regras ambientais e defendia ampliar a exploração de recursos naturais, inclusive em áreas de preservação e territórios indígenas, por meio de mudanças legais.
O plano de governo, por outro lado, prevê zerar o desmatamento ilegal até 2029 e menciona fiscalização ambiental. É necessário esclarecer como essas metas serão conciliadas com a intenção de flexibilizar a legislação e acelerar licenciamentos.
A questão ambiental não pode ser reduzida a uma disputa entre produtores e ambientalistas. A produção econômica é importante, mas a degradação pode comprometer o abastecimento de água, a produção de alimentos, a saúde e a segurança de comunidades inteiras. Os efeitos de enchentes, secas e ondas de calor atingem com maior intensidade quem dispõe de menos recursos para se proteger.
A exploração de terras raras e outros minerais estratégicos torna essa discussão ainda mais relevante. O país precisa desenvolver sua indústria, mas também garantir fiscalização, recuperação ambiental, consulta às comunidades afetadas e distribuição justa dos benefícios.
A pergunta é se o desenvolvimento proposto será capaz de combinar geração de riqueza, proteção ambiental e interesse público.
7. Democracia: o que muda quando se alteram as regras do poder?
As propostas de Flávio Bolsonaro também incluem mudanças no funcionamento das instituições, como alterações nas decisões individuais de ministros do Supremo Tribunal Federal e o fim da reeleição para cargos do Executivo.
Reformas institucionais podem ser debatidas democraticamente. O essencial é avaliar seus efeitos sobre a independência dos Poderes, os mecanismos de fiscalização e a proteção dos direitos fundamentais.
A democracia não se limita ao ato de votar. Ela depende de instituições capazes de fiscalizar o governo, assegurar direitos e impedir que o poder seja exercido sem limites. Por isso, mudanças nas regras institucionais precisam ser apresentadas com clareza, submetidas ao debate público e conduzidas conforme a Constituição.
O eleitor tem o direito de saber quais mudanças são propostas, como serão implementadas e quais consequências poderão produzir.
8. O Brasil não merece retroceder sem saber quem pagará a conta
Terras raras, aposentadorias, financiamento de projetos privados, direitos trabalhistas, assistência social, meio ambiente e democracia podem parecer assuntos distantes entre si. Na realidade, todos tratam de como o poder e a riqueza são distribuídos.
O Brasil pode ampliar sua participação na indústria tecnológica ou continuar dependente da exportação de matérias-primas. Pode buscar equilíbrio fiscal com proteção social ou adotar medidas cujos efeitos sobre os mais vulneráveis precisam ser esclarecidos. Pode combater a corrupção com transparência e investigação independente, sem transformar suspeitas em condenações nem dispensar explicações de figuras poderosas.
A candidatura de Flávio Bolsonaro apresenta propostas que precisam ser examinadas criticamente, sobretudo quando envolvem mudanças na proteção social, flexibilização ambiental e reorganização do Estado. Ao mesmo tempo, as acusações relacionadas ao caso Vorcaro precisam ser tratadas conforme o andamento das investigações e as evidências disponíveis.
O eleitor não deve aceitar promessas sem perguntar como serão cumpridas. Tampouco deve aceitar que direitos conquistados sejam tratados como obstáculos ao desenvolvimento.
O país precisa de empregos, segurança, inovação, serviços públicos de qualidade, responsabilidade ambiental e instituições democráticas sólidas. A questão é saber quais políticas podem alcançar esses objetivos e como seus resultados serão distribuídos pela sociedade.
O Brasil não merece um futuro decidido sem transparência, sem garantias sociais e sem respeito ao interesse público.
Antes de qualquer candidato pedir confiança, a população tem o direito de exigir respostas: quem controlará nossas riquezas, como serão protegidas as aposentadorias, quais direitos serão preservados e quem responderá quando houver suspeitas de irregularidades?
Porque o verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelo dinheiro movimentado ou pela riqueza extraída do território. Mede-se também pela capacidade de transformar recursos em direitos, oportunidades e dignidade para a população. E é esse futuro que precisa estar no centro do debate eleitoral.

