EDITORIAL
A queda do primeiro para o oitavo lugar expõe as limitações de um índice baseado apenas no número de homicídios e ajuda a desfazer a falsa ideia de segurança absoluta.
Valinhos já foi a cidade mais segura do Brasil. Agora é a oitava. E talvez, no ano que vem, seja a terceira, a décima ou volte ao topo. A pergunta que fica é: o que realmente mudou na vida dos moradores de um ano para o outro?
O ranking divulgado pela MySide, amplamente repercutido pela imprensa e pelos órgãos oficiais de comunicação, utiliza um único indicador: a taxa de homicídios por 100 mil habitantes. Trata-se, sem dúvida, de um dado importante. Mas está longe de ser suficiente para definir o que é viver em segurança. Os próprios autores do estudo fazem questão de advertir: o anuário possui limitações estatísticas, pode apresentar distorções e não pretende estabelecer uma verdade absoluta. Seu objetivo principal é servir de guia para pessoas em busca de um imóvel em outra cidade. Ainda assim, a manchete costuma falar mais alto que a advertência.
Foi assim em 2024, quando Valinhos ostentou orgulhosamente o título de cidade mais segura do Brasil. E foi assim agora, em 2025, quando a cidade caiu para a oitava posição, atrás de municípios catarinenses como Brusque, Jaraguá do Sul e Tubarão. Curiosamente, a perda da liderança recebeu muito menos atenção. Como se a notícia só interessasse enquanto pudesse alimentar a narrativa de uma segurança absoluta.

Mas a vida real não cabe em rankings.
Segurança pública não se mede apenas pelo número de assassinatos. Mede-se também pela incidência de roubos, furtos, violência doméstica, crimes patrimoniais, tráfico de drogas, sensação de insegurança e capacidade de resposta do poder público. Mede-se, sobretudo, pela experiência cotidiana das pessoas.
Não se trata de diminuir os avanços conquistados por Valinhos nem de ignorar que a cidade apresenta indicadores melhores do que a maioria dos municípios brasileiros. Trata-se apenas de rejeitar a ilusão de que segurança possa ser reduzida a um número ou a uma posição em um pódio estatístico.
Aliás, a própria queda no ranking deveria servir como convite à reflexão. Se ontem éramos os primeiros e hoje somos os oitavos, talvez seja porque a segurança não seja um estado permanente, mas uma construção diária, frágil e complexa, que exige investimentos, planejamento e vigilância constante.
A boa notícia é que Valinhos continua sendo uma cidade relativamente segura. A má notícia é que alguns insistem em vender a ideia de que vivemos em um paraíso imune aos problemas que afligem o restante do país.
Não vivemos.
E reconhecer isso não é torcer contra a cidade.
É, justamente, o primeiro passo para protegê-la.

