De tempos em tempos, sempre aparece a necessidade de dizer o básico
Por Igor Lages de Carvalho
Apesar de as informações ambientais serem amplamente difundidas e popularizadas, os representantes que detêm o poder de decisão, com uma frequência infelizmente alta, surgem com propostas que vão na contramão das necessidades individuais e coletivas de toda uma região, comprometendo a qualidade de vida das atuais e futuras gerações.
Quando falamos em uma cidade com planejamento voltado à sustentabilidade socioambiental, necessariamente precisamos ouvir a sociedade civil, representantes sociais, técnicos, pesquisadores, entidades, movimentos e representantes das diversas áreas, que têm seu espaço de manifestação e podem contribuir com esse debate.
A discussão sobre o futuro da Fazenda Remonta precisa partir justamente desse princípio.
Para listar alguns dos impactos relevantes que a descaracterização dessa área poderá ocasionar, podemos começar pela permeabilidade do solo. A região já enfrenta dificuldades de escoamento das águas, e os alagamentos são uma realidade que afeta diretamente a população. Gastam-se milhões com obras de drenagem, buscando soluções para as consequências, mas poucas vezes enfrentando a origem do problema.
A forma como ocupamos o território e preservamos — ou deixamos de preservar — nossas áreas permeáveis precisa fazer parte dessa discussão.
O impacto sobre a mobilidade urbana, embora possa parecer secundário, merece destaque. Quem enfrenta diariamente esse desafio sabe que o loteamento daquela região provocaria um aumento significativo no número de moradores, veículos e deslocamentos, agravando os transtornos em um sistema viário que já apresenta dificuldades.
Outro ponto de grande relevância socioambiental é o papel hídrico, florestal e ecológico da área para Valinhos, Campinas e toda a Região Metropolitana.
Sofremos com a fragmentação ambiental. Não há passagens de fauna estruturadas, e os fragmentos de vegetação ficam cada vez mais isolados. Florestas sem animais circulando comprometem toda a saúde do ecossistema, já que a fauna exerce papel fundamental na dispersão de sementes, na ocupação dos habitats e na manutenção do equilíbrio ambiental.
Ignorar esse impacto é ignorar a possibilidade de uma vida minimamente saudável.
Precisamos proteger aquilo que nos proporciona bem-estar, preservando áreas de infiltração de água, recursos hídricos, vegetação e biodiversidade, evitando também o agravamento de problemas que já fazem parte da nossa realidade, como ondas de calor, secas e baixa qualidade do ar.
A proposta de leilão da Fazenda Remonta é um exemplo claro da necessidade de ampliar esse debate, tanto no âmbito ambiental quanto no social e urbanístico.
Estamos diante de um dilema que envolve também quem detém, institucionalmente, o direito sobre a propriedade. Por se tratar de uma área vinculada ao Exército Brasileiro e a instituições federais, sabemos que a capacidade direta de decisão dos municípios possui limites.
É justamente por isso que nossas ações só terão força significativa a partir de um amplo apelo e de uma mobilização popular e institucional.
Nossos representantes, nas diferentes esferas de poder, têm capacidade de oportunizar esse debate, acionando instituições públicas, entidades, universidades, conselhos, movimentos coletivos e demais representantes da sociedade.
Nós, como sociedade civil, temos o direito e também o dever de agir, propor o debate, buscar informações e participar da tomada de decisão sobre algo que poderá comprometer ou proteger toda uma região.
Mais do que discutir apenas a venda ou não da área, precisamos discutir o que ela representa para Valinhos, Campinas e região e quais serão as consequências das decisões tomadas agora.
É um tema que vai além de fronteiras territoriais ou ideológicas.
A água não reconhece divisas municipais.
A fauna não reconhece limites administrativos.
Os impactos ambientais também não.
Enquanto não entendermos que tudo está interligado — vida, sociedade, urbanismo, economia e natureza; passado, presente e futuro — estaremos sempre repetindo discursos e soluções para os mesmos problemas e combatendo os mesmos erros.
É algo que afeta a todos.
E todos devem ter a oportunidade de se envolver.


